A Fragilidade Humana e a Graça de Deus: Reflexões sobre o Salmo 51


“Ó Deus, cria em mim um coração puro e dá-me uma vontade nova e firme! Não me expulses da tua presença, nem tires de mim o teu santo Espírito. Dá-me novamente a alegria da tua salvação e conserva em mim o desejo de ser obediente. Então ensinarei aos desobedientes as tuas leis, e eles voltarão a ti.” — Salmo 51:10–13  
O Salmo 51 trata-se de um clamor desesperado de uma alma que caiu em pecado, na qual se deparou com sua condição de imundície e iniquidade. Não soaria como uma surpresa se estivéssemos falando de qualquer outro personagem da Bíblia; a surpresa vem quando nos deparamos que esse salmo brotou da pena de um rei conhecido como o homem segundo o coração de Deus. Exatamente! Esse salmo foi escrito pelo rei Davi.

A narrativa inspirada das Sagradas Escrituras não se preocupou em omitir o pecado do homem segundo o coração de Deus — muito pelo contrário, ela o escancarou. É como se estivesse nos advertindo que até os mais piedosos homens de Deus estão sujeitos a cair em pecado. Poderia descrever detalhadamente o pecado de Davi e o quanto a sua falha trouxe sérias consequências no seio do seu lar. No entanto, gostaria de frisar que o que torna Davi o homem segundo o coração de Deus é o fato de que, apesar de falhas graves, seu arrependimento era genuíno, profundo e imediato.

“Ó Deus, cria em mim um coração puro e dá-me uma vontade nova e firme!” Essa oração precisa brotar constantemente de nossos lábios: “cria em mim um coração puro”. Jesus já havia nos advertido que onde estivesse o nosso tesouro, aí estaria o nosso coração. Todos os dias, durante algum período, eu me pego me questionando o quão distante está meu coração do Senhor. São tantas distrações, informações, tarefas e compromissos que, quando nos damos conta, o dia se foi e esquecemos de buscar ao Senhor. Vivemos em um ciclo constante de altos e baixos na vida cristã.

Ao contrário de outros reis, como por exemplo Saul, Davi não buscava a própria glória ou o controle absoluto, mas reconhecia a soberania de Deus acima da sua coroa. Ele buscava a Deus acima dos seus interesses.

“Não me expulses da tua presença, nem tires de mim o teu santo Espírito.” —  Salmo 51:10

Esse foi o grito que brotou de um coração que já havia provado o sabor e a experiência do que é andar na presença de Deus. Quando Deus usou o profeta Natã para expor o seu pecado, Davi caiu em si. Seu coração, outrora endurecido pelo pecado, agora se via em angústia, inquietação e sem paz. O pecado que outrora era atrativo, belo, atraente e saboroso, arrancou sua máscara diante dos seus olhos e mostrou sua verdadeira carranca. Davi se viu vazio. Sua dor não foi apenas porque o seu pecado traria consequências devastadoras que marcariam o restante do seu reinado ("A espada jamais se afastará da sua casa"), mas porque ele se encontrou no lugar mais vazio em que uma alma poderia estar: a solidão de uma alma sem a presença do Espírito Santo.

“Dá-me novamente a alegria da tua salvação e conserva em mim o desejo de ser obediente.” Esse brado de uma alma desesperada, a alma de Davi, deixa claro por que ele era o homem segundo o coração de Deus. Davi poderia aceitar de bom grado viver o maior inferno na terra que sua carne pudesse suportar, mas não poderia viver sem a presença de Deus. Ele aceitaria de bom grado a espada do juízo de Deus sobre seus bens, sua casa, sua carne, sua coroa e seu reinado; contanto, no entanto, que a presença do Espírito Santo não o abandonasse. Só quem já experimentou a presença real, viva, latente e gloriosa de Deus sabe que o maior inferno que um homem pode viver na terra é passar o resto da sua vida sem tê-la. Como Martyn Lloyd-Jones brilhantemente escreveu:

"O desviado é um homem que, por causa da relação que teve com Deus, nunca pode desfrutar bem de qualquer outra coisa."

Davi pôs os olhos onde não deveria, olhou para a mulher que não era sua, subestimou sua natureza adâmica, flertou com seus instintos naturais e se viu chafurdado no lodo do pecado. O apóstolo Paulo nos deixa uma exortação que deve ser levada seriamente em consideração:

“Fuja das paixões da mocidade e procure viver uma vida correta, com fé, amor e paz, junto com os que com um coração puro pedem a ajuda do Senhor.” — 2 Timóteo 2:22

Quantos andam errantes, afligidos e acorrentados pelos seus pecados, mas não possuem forças para romper esses grilhões? Quantos são aqueles que outrora conheceram a alegria da salvação, mas que agora se encontram em um estado de letargia espiritual, onde o pecado já não os incomoda tanto quanto antes, e a comunhão com Deus tornou-se uma vaga lembrança, e não uma realidade viva?

Quem sabe Deus me enviou como um arauto para você, como um porta-voz através deste texto, assim como Deus enviou Natã para o rei Davi. Que, através dessas palavras, você caia em si e contemple, através do espelho da Palavra de Deus, o seu real estado. Deus espera que você reconheça o seu estado. Por mais sujo que você esteja, não importa: Ele vem até você, Ele lhe limpará e lhe dará vestes novas de justiça. Ele derramará novamente o Seu Espírito e lhe restaurará a alegria da salvação, e então:

“...ensinarei aos desobedientes as tuas leis, e eles voltarão a ti.” — Salmo 51:13

Ele quer usar você para que, através da sua vida e do seu testemunho, outras vidas que se encontram perdidas possam ser alcançadas.


Rafael Willison

Formado em Tecnologia da informação pela Fundação Centro de Análise, Pesquisa e Inovação Tecnológica e graduando em Tecnologia em Redes de Computadores pela Universidade Estácio de Sá, é especialista em infraestrutura e segurança de redes de computadores, onde atua há mais de 10 anos. Atualmente Coordena Projetos Tecnológicos no CEMEAM (Centro de Mídias de Educação do Amazonas). É criador e editor do website Chamado ao Evangelho, diácono e professor da Escola Bíblica Dominical na Igreja Jesus Cristo Vivo.

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