Textos-base: Levítico 21.18-20 e 1 Timóteo 3.1-3
Gostaria que os irmãos abrissem suas Bíblias comigo em Levítico, capítulo 21, a partir do versículo 18. Nesse texto, encontramos doze requisitos para que alguém pudesse servir no sacerdócio:
“Pois nenhum homem em quem houver alguma deformidade se chegará: como homem cego, ou coxo, ou de nariz chato, ou de membros demasiadamente compridos; ou homem que tiver o pé quebrado, ou quebrada a mão; ou corcovado, ou anão, ou que tiver belida no olho, ou sarna, ou impigem, ou que tiver testículo quebrado.”
Aqui estava a recomendação divina para que alguém pudesse ingressar no sacerdócio e servir a Deus.
As formas de orientação divina na Antiga Aliança
Na Antiga Aliança, havia diferentes maneiras pelas quais Deus se revelava. Por isso, a Bíblia diz que Deus, antigamente, falou muitas vezes e de muitas maneiras aos pais, por meio dos profetas.
Existia o ministério profético: o profeta recebia a direção divina e transmitia a mensagem de acordo com aquilo que Deus lhe havia ordenado. Havia também uma maneira de o homem se aproximar de Deus por meio dos sacrifícios cerimoniais. Além disso, existia aquilo que a Bíblia chama de Urim e Tumim.
Eu já expliquei aos irmãos, em outras oportunidades, o que eram o Urim e o Tumim. Quando abrimos um dicionário, encontramos apenas os sentidos de “luzes” e “perfeições”. Isso, porém, indica o significado das palavras, não explica todo o seu funcionamento.
Meus queridos irmãos, a expressão associada ao Urim e ao Tumim traz a ideia de uma luz sinalizadora, algo semelhante ao feu clignotant da língua francesa. Aqui no Brasil, podemos pensar em um semáforo, com suas três cores: amarelo, verde e vermelho. O amarelo é um sinal de atenção: indica que se deve esperar, porque o sinal poderá ficar verde, permitindo a passagem, ou vermelho, determinando a parada.
Segundo a explicação apresentada, o Urim e o Tumim se manifestavam dessa maneira entre aquelas pedras. Luzes sobrenaturais, emanadas de Deus, brilhavam depois que o sacerdote fazia a consulta. O doutor Gesenius, uma das grandes autoridades nas línguas semíticas, também é mencionado nessa explicação.
Quando o sacerdote entrava naquele lugar escuro — pois, no Lugar Santíssimo, não havia luz natural —, ele levava diante de Deus a necessidade do povo. Ali entravam apenas o sumo sacerdote, uma vez por ano, e Deus; e a Bíblia diz que Deus é luz. Quando Deus chegava, não era necessária outra iluminação.
O sacerdote ouvia o problema do povo e, quando não encontrava na Lei um dispositivo claro pelo qual pudesse julgar aquela causa, buscava a direção divina. Algo semelhante acontece conosco: às vezes surge um problema tão difícil que, por causa da nossa limitação de entendimento, não encontramos imediatamente na Bíblia uma orientação específica para aquela situação. Em certos casos, trata-se até de uma decisão de vida ou morte.
Hoje, recorremos à direção do Espírito Santo. O lançamento de sortes desaparece depois do primeiro capítulo de Atos, porque, no capítulo 2, o Espírito Santo desce sobre a Igreja. Já não precisamos lançar sortes; devemos pedir a orientação do Espírito de Deus, e ele nos dará a direção precisa. Aleluia!
O sacerdote levava aquelas duas pedras sobre o peito, junto ao coração. Quando entrava no lugar santo, uma luz amarela começava a piscar, como um sinal de atenção. Havia, então, um período para que ele orasse, apresentasse a causa diante de Deus e aguardasse a resposta.
Antes disso, ele passava por um véu muito espesso, o mesmo véu que se rasgou no dia da morte de Cristo. Segundo a descrição apresentada, havia ali uma expressão: “Entre as faces dos querubins, somente até aqui”. Isso indicava que apenas ele podia entrar e que ninguém mais deveria ultrapassar aquele limite.
Quando o sacerdote orava e aquilo estava de acordo com a vontade de Deus, a luz amarela se apagava e uma luz sobrenatural de cor verde começava a brilhar. Ali estavam as luzes, mas também estava a perfeição da resposta. Ele sabia, sem nenhuma dúvida, que aquela era a vontade divina. O sinal verde queria dizer: “Passe”.
Quando não era a vontade de Deus, a luz amarela se apagava e brilhava uma luz vermelha. Ficava revelado que aquele não era o caminho, e o sacerdote deveria procurar outra direção.
Há, porém, três maneiras pelas quais Deus pode responder. Às vezes, ele diz “não”. Moisés orou para entrar na Terra Prometida, e Deus respondeu: “Não me fales mais neste assunto”. Em outras ocasiões, Deus responde positivamente e diz “sim”. Há ainda orações às quais Deus responde: “Espere um pouco”. Nesse caso, não brilharia nem a luz vermelha nem a verde; permaneceria o sinal amarelo, dizendo: “Espere”. Era uma importante maneira de Deus se manifestar por meio do Urim e do Tumim.
Aplicações espirituais dos requisitos sacerdotais
O sacerdote precisava representar um tipo de beleza e integridade. As limitações físicas mencionadas no texto da Antiga Aliança podem ser aplicadas, de maneira figurada, à vida ministerial.
1. O obreiro não pode ser cego
O homem cego não podia servir no sacerdócio. Espiritualmente, a cegueira fala de uma pessoa sem visão. Há pessoas que só percebem as coisas quando tropeçam nelas: “Eu nem sabia que isso estava aqui!”.
Tenho dito que enviar obreiros ao campo missionário não é uma decisão que deve nascer apenas da emoção. Não basta chegar a um culto, ouvir um evangelista pregar, participar de um grande movimento e, no calor daquele momento, prometer enviar cinco ou dez missionários.
Eu também gosto de movimento. Enquanto o despertamento não chega, vamos fazendo movimento, até que Deus nos socorra e envie um despertamento divino. Entretanto, quando o culto termina, a pessoa dorme, aquela emoção passa e, no outro dia, ela nem se lembra mais do que prometeu.
Missões não devem ser feitas assim. O homem de Deus precisa sentir o chamado, orar, meditar e dizer com convicção: “Eu farei isso para Deus, porque há um campo precisando”. Não é apenas uma questão de emoção; é também uma decisão consciente e responsável.
O obreiro precisa ter visão. Nossa visão deve ser como a de Moisés. Ele chegou aos 120 anos, mas ainda subia montanhas. As provas que Deus lhe apresentou foram sempre difíceis.
Quando Deus mandou Moisés lançar a vara no chão, ela se transformou em uma serpente tão perigosa que Moisés fugiu dela. Então Deus lhe disse:
— Pegue a serpente, Moisés.
Moisés poderia pensar em segurá-la pela cabeça, como recomendaria a técnica humana, mas Deus ordenou:
— Não é pela cabeça. Você deve pegá-la pela cauda.
Aleluia! Ali estava uma prova dos limites da coragem de Moisés. Deus sempre lhe apresentava desafios difíceis, mas também trazia a solução.
Em outra ocasião, Deus havia ordenado que Moisés circuncidasse seu filho. Moisés, porém, esqueceu-se disso. Quando chegou a uma estalagem, o Senhor o encontrou e quis matá-lo. Então Zípora realizou a circuncisão e declarou: “Certamente me és um esposo sanguinário”. Ela não estava familiarizada com aquele procedimento, mas obedeceu à exigência divina.
Depois de atravessar o deserto, Moisés descuidou-se por um momento e ficou na fronteira da Terra Prometida. Somente cerca de 1.500 anos depois, no monte da transfiguração, Deus o levou até aquela terra com Jesus Cristo, nosso Senhor.
Deus disse a Moisés:
— Suba ao monte.
— Senhor, estou com 120 anos!
— Sim, mas é para subir!
Moisés subiu. A Bíblia diz que sua visão permanecia tão perfeita que ele viu até o mar último. A nossa visão também precisa alcançar os confins da Terra. Aleluia! O homem de Deus não pode ser cego; ele precisa enxergar os campos que já estão brancos para a ceifa.
2. O obreiro não pode ter a visão obscurecida
O sacerdote também não podia ter belida no olho. Às vezes, a pessoa não é completamente cega, mas tem a visão enfraquecida: enxerga apenas um lado e não consegue ver o outro.
Alguém diz:
— Esse negócio de enviar missionários não dá. A igreja é pobre.
Não, irmão! Corrija a sua visão. A Igreja é rica! Ela só cumpre plenamente sua missão quando entra na quarta dimensão apresentada por Deus:
“Recebereis a virtude do Espírito Santo, que há de vir sobre vós; e ser-me-eis testemunhas tanto em Jerusalém como em toda a Judeia e Samaria e até aos confins da terra.”
Nossa Jerusalém é a cidade em que vivemos. Nossa Judeia compreende o nosso país. Samaria representa aqueles que costumam ser desprezados ou mantidos longe de nossa comunhão. A última dimensão do Evangelho, porém, não termina aí: ela vai até os confins da Terra. Louvado seja Deus!
3. O obreiro não pode ser coxo
O obreiro de Deus não pode ser coxo. Um irmão me disse certa vez:
— Eu gosto deste ministério, mas preciso ir para outro, porque me ofereceram a feira de lá.
Coitado! Está coxo. O obreiro que abandona um ministério apenas por causa do dinheiro da feira precisa aprender novamente a andar com firmeza.
Elias encontrou um grupo de homens espiritualmente coxos e perguntou: “Até quando coxeareis entre dois pensamentos?”. O homem de Deus precisa ter posição e firmeza na vida.
Quando fui trabalhar para Deus, fui enviado para um lugar muito distante, um verdadeiro “pé de serra”. O irmão Apolônio conhece aquela região. Não havia praticamente nada ali. Meu pastor nem parecia acreditar muito em mim:
— Você tem chamada?
— Tenho, pastor.
— Quem colocou isso em sua cabeça?
— Foi Deus.
— Então você irá para aquela cidade. Não há nenhum crente lá e você também não levará salário.
— Pois não, pastor. Mas levarei duas coisas importantes: a fábrica de fazer crentes, que é a Bíblia, está em minhas mãos; e a matéria-prima para fazer crentes, que são os pecadores, está lá.
E fui em nome de Jesus. Naquele tempo, eu gostava muito de pregar. Quase não comia, mas passava as 24 horas pregando por todos os lados, até o padre da cidade ficar preocupado. Pela misericórdia de Deus, hoje há ali uma igreja-sede e uma filial, dois grandes templos para a glória de Deus. A cidade chama-se São Paulo do Potengi. O irmão Apolônio a conhece muito bem.
O pastor que depois cuidou de uma das maiores igrejas de Mossoró também veio daquele trabalho. Ele já encerrou seu ministério nesta Terra e foi para a eternidade. Deus é o Todo-Poderoso!
Houve dias em que me deu vontade de fugir. Vendi sapatos e roupas para pagar a água e a energia elétrica da igreja. Eu dizia:
— Jesus, posso andar descalço, mas a tua igreja não pode passar vergonha.
Aleluia! Glória a Deus!
Vendi até um terno novo. Eu não tinha muitos; possuía apenas dois. Contudo, foi necessário pagar uma conta da igreja, e eu disse:
— Jesus, venderei este terno.
Quando cheguei em casa, depois do culto da noite, Deus, que vê a nossa vida, falou comigo:
— Meu servo, vi o teu amor e a tua consideração pela minha causa. Hoje te farei uma promessa: nunca mais precisarás vender uma roupa tua.
Depois disso, Deus mandou um “dilúvio de ternos”. Foram tantos que, em alguns dias, fico até embaraçado para escolher qual vestir.
Ainda ontem, um irmão que eu nem conhecia se aproximou e perguntou:
— Pastor, o que o senhor fará no dia três?
— Muita coisa.
— Então não reserve a manhã, porque Deus mandou que eu lhe desse um terno. Quero que o senhor vá comigo comprá-lo.
Deus é soberano! O homem de Deus não pode ser coxo. Precisa andar com firmeza, pegar no arado e não olhar para trás, aconteça o que acontecer. Saiba que Deus está com você. Aleluia!
4. O obreiro não pode ter o “nariz chato”
O texto também diz que o sacerdote não podia ter o nariz chato. Se essa exigência física vigorasse hoje, talvez eu mesmo não pudesse servir, porque meu nariz não é muito afilado!
Entretanto, há pessoas que não têm apenas o nariz chato; são inteiramente “chatas”. Na aplicação ministerial, o nariz chato representa aquele defeito sempre exposto, a tendência de se intrometer em tudo e na vida de todos. Há gente que entra até em briga que não lhe pertence.
Moisés fez algo parecido. A briga não era dele, mas ele entrou no conflito, e o problema acabou sobrando para ele. Moisés era um pouco violento: ao tentar apartar uma briga, matou um homem. Depois, porém, Deus transformou sua vida. A Bíblia diz que ele se tornou o homem mais manso que havia sobre a Terra. Louvado seja o nome do Senhor! Deus é poderoso!
5. O obreiro não pode ter membros demasiadamente compridos
O texto fala, ainda, de alguém que tivesse um dos membros demasiadamente comprido. Isso era uma anomalia física com a qual uma criança poderia nascer. No sentido ministerial, porém, dois membros se tornam especialmente perigosos quando são “compridos demais”: o olho e a mão.
Há pessoas com um “olho grande” que assusta. Querem somente coisas grandes. Às vezes, o pé da pessoa calça 38, mas ela quer um sapato 40. O resultado é algo visivelmente desproporcional: o sapato sai do pé, e ela termina descalça.
Assim também acontece no ministério. O obreiro diz:
— Deram-me aquela igrejinha, mas eu nem a quero. Não sou pastor de igrejinha!
Não existe “igrejinha”; existe a Igreja do Deus Todo-Poderoso! Aleluia!
Outro reclama:
— O pastor só me deu aquela congregação lá naquele lugar distante.
Vá para lá, irmão! É de lá que Deus começará a abençoá-lo. A congregação é pequena, mas diga: “Eu pregarei, e ela crescerá”. E ela cresce mesmo!
O outro membro perigoso é a mão grande. É muito grave quando um homem de Deus tem a “mão grande”. Graças a Deus, aqui em São Paulo não há desses homens; talvez existam em outras fronteiras.
Judas tinha uma mão grande. Tudo o que colocavam na bolsa recebia a mão dele. O obreiro de Deus, porém, precisa ser curado dessa doença. Ele deve saber contentar-se com o que tem.
Eu não perco minha alegria nem minha comunhão com Deus por causa de uma carrada de livros, quanto mais por causa de um único livro. Nada neste mundo deve quebrar a comunhão do obreiro com Deus. Louvado seja Deus!
6. O obreiro não pode ter o pé quebrado
O homem que tem o pé quebrado não anda com firmeza. Há pessoas que vivem mudando de direção: hoje estão de um lado; amanhã, de outro. Andam conforme as circunstâncias. Têm o pé quebrado e só conseguem caminhar manquejando.
Nosso ministério deve ser apoiado, mas não pode ficar escorado em ninguém. Alguém diz:
— Só sou ministro porque o irmão Fulano me consagrou. Eu nem queria, mas ele insistiu e, enquanto esteve aqui, ajudou-me.
Nosso ministério não pode depender de muletas. Precisamos recebê-lo diretamente do Senhor, porque há momentos em que, se o obreiro não tiver a graça e a chamada de Deus, tudo empaca. Enfrentamos forças espirituais que querem destruir a igreja e o ministério. É nesse momento que o homem de Deus precisa do poderoso auxílio do Senhor.
7. O obreiro não pode ter a mão quebrada
A mão quebrada pode receber diferentes aplicações. Quando pregamos aos crentes, podemos compará-la à pessoa que nunca contribui nem constrói coisa alguma.
Não podemos ter o “dom do repolho”, que cresce sempre para dentro, encolhendo-se. Precisamos crescer e manter a mão estendida para contribuir com a obra de Deus, socorrer os necessitados e também ajudar na construção material.
Uma obra pode começar do nada. Deus mostrou a Davi apenas um risco, um traço do projeto. A planta de Deus não estava cheia daqueles detalhes difíceis que, às vezes, nem o engenheiro consegue ler. Deus passou o lápis divino e mostrou o risco a Davi.
Davi perguntou:
— O que é isto, Senhor?
— É a planta do templo.
— Então já começarei a juntar o material.
Quando Deus manda, irmão, ainda que haja apenas um risco no chão, comece!
Tenho uma filosofia: para realizar uma grande obra, três coisas são indispensáveis. Comecemos pelo terceiro tópico: conclusão, continuação e começo. Para concluir, é necessário continuar; para continuar, é necessário começar. O segredo é começar. Quando nós começamos, Deus também começa a agir. Louvado seja Deus! O resultado será glorioso.
8. O obreiro não pode ser corcovado
O corcovado é aquele que olha apenas para baixo e nunca para cima. Há pessoas que só enxergam as coisas da Terra e não olham para as coisas do Céu.
Certa vez, fui visitar um companheiro. Ele havia comprado um carro de aluguel. Quando a caravana chegou, ele disse:
— Irmãos, não posso atendê-los agora. Preciso levar estas pessoas a determinado lugar.
Ficamos ali com as bolsas e as roupas empoeiradas, porque a estrada era de areia. Quando ele voltou, já havia outros dois passageiros esperando para serem levados a outro destino. O culto terminou, e aquele irmão não apareceu. Coitado! Estava corcovado, olhando apenas para as coisas terrenas.
Eu lhe disse:
— Companheiro, Deus não o chamou para isso. Vá cuidar das ovelhas de Deus, e Deus cuidará da sua família.
Aleluia!
9. O obreiro não pode ter sarna
Os irmãos sabem o que é a sarna: é um mal contagioso. Da mesma maneira, há pessoas que gostam de espalhar certas conversas.
Fui consagrado a diácono à noite. Na manhã seguinte, um colega aproximou-se de mim, lamentando-se:
— Irmão Severino, eu não dormi esta noite.
— Que diferença! Eu passei a noite dormindo tão alegre!
— Alegre por quê?
— Porque agora sou diácono da Casa de Deus. Eu não era digno nem de ser crente e já sou diácono!
Então ele explicou:
— Vim dizer que fizeram um serviço errado ontem à noite.
— Meu Deus! Eu pensei que tivessem feito o certo. O irmão acha que foi errado?
— Era para terem consagrado você a evangelista, no mínimo. Você não acha que estou certo?
— Meu irmão, com todo o respeito, acho que o senhor não está certo.
— Por quê?
— Porque li na Bíblia que os diáconos foram escolhidos para fazer cessar as murmurações. Fui consagrado ontem e, hoje, não posso murmurar contra o meu pastor. Ainda não completei nem 24 horas como diácono, e o senhor já quer que eu murmure contra ele?
Ele baixou a cabeça e foi embora. “Vá para lá com a sua sarna”, pensei. A murmuração é uma sarna espiritual. Graças a Deus, quem é salvo precisa livrar-se dessa doença. Aleluia!
10. O obreiro não pode ter impigem
A impigem fala de impureza. O ministro de Deus não pode alimentar uma mente impura, porque deve ser um canal por meio do qual Deus beneficia outras pessoas. Por intermédio da vida do obreiro, Deus quer curar, transformar e abençoar.
Na terça-feira da semana passada, eu estava orando aqui quando chegou um casal aflito, chorando e carregando uma criança de dois anos nos braços.
— Pastor, socorra-nos, pelo amor de Deus!
— O que aconteceu?
— Quando estávamos saindo para a igreja, nossa filha engoliu um alfinete. Sabemos do perigo: ele pode se alojar no esôfago, no intestino ou atingir algum órgão.
Peguei um vidro de óleo que o pastor da igreja usa para ungir os enfermos. O vidro já está um pouco amarelado, mas aquele óleo é uma bênção!
Eu disse:
— Irmão, ajoelhe-se aqui com a sua esposa, perto da cadeira do nosso pastor.
Quando uma pessoa importante chega enquanto o pastor está viajando, ninguém deve colocá-la imediatamente na cadeira pastoral. Certa vez, um grande líder de outro país visitou a igreja. Como o pastor estava viajando, um colega mandou que ele se sentasse na cadeira do pastor. Eu disse:
— Companheiro, levante-se daí. Nessa cadeira, alguém só se senta por ordem do pastor. Ele não está presente e, pela misericórdia de Deus, estou aqui para preservar a autoridade pastoral. Se o pastor mandar alguém sentar-se, ele tem autoridade para isso; sem a sua ordem, ninguém se senta.
Como aquele pai era um crente simples, eu lhe disse:
— Ajoelhe-se com sua esposa perto da cadeira do nosso pastor, porque há unção de Deus neste lugar.
Peguei o vidro de óleo e chamei o pastor daquele irmão, que estava presente. Não sei se ele está conosco hoje. Quando coloquei o óleo no dedo e toquei a cabeça daquela criança, senti como se uma mão divina entrasse por baixo da minha. Aleluia! Esse é um dos sinais que Deus me dá.
Eu disse:
— Meu irmão, pode se levantar. Não leve mais a menina a lugar algum, porque esse alfinete não lhe causará nenhum problema.
No dia seguinte, eu estava orando quando o pai chegou e disse:
— Pastor Severino, vim contar o milagre. Quando minha filha foi fazer suas necessidades, o alfinete saiu direitinho e não lhe causou mal algum.
Deus é o Todo-Poderoso! Louvado seja o nome do Senhor!
Esses eram alguns dos requisitos apresentados na Antiga Aliança para que alguém fosse considerado apto a servir no sacerdócio. Na Nova Aliança, Paulo mostra as características espirituais do obreiro. Elas não se aplicam somente ao presbítero ou ao bispo, mas aos obreiros em sentido geral.
As características do obreiro na Nova Aliança
Paulo começa afirmando que o ministério é uma obra excelente. Em Atos dos Apóstolos, capítulo 6, vemos que até servir às mesas na Casa de Deus é uma tarefa importante e gloriosa.
A palavra “bispo” vem de epískopos. A ideia é a de alguém que está sobre alguma coisa e possui uma visão geral. O presbítero, o obreiro de Deus, é um atalaia. Ele está em uma posição de responsabilidade, da qual precisa olhar, vigiar e supervisionar.
Depois disso, o apóstolo apresenta as características necessárias ao obreiro.
1. Irrepreensível
“Convém, pois, que o bispo seja irrepreensível...”
Quando Paulo escreveu a Tito, essa também foi uma das primeiras exigências apresentadas: o obreiro deve ter uma vida irrepreensível. Deve manter seus compromissos em dia e cuidar de sua maneira de se portar, andar e tratar os irmãos, entre muitas outras coisas.
A Bíblia fala de um apóstolo que, em determinada ocasião, se tornou repreensível: Pedro. Paulo lhe resistiu face a face. Isso não significa que Pedro vivesse entregue ao pecado. Ele era um homem sincero e um homem de Deus. Quando estava entre os gentios, convivia naturalmente com eles. Quando chegaram alguns irmãos da Judeia, porém, começou a se afastar e a dissimular pouco a pouco.
Há pessoas que fazem o mesmo. Quando não há por perto alguém considerado grande ou rico, convivem alegremente com os pequeninos. Quando chega uma pessoa importante, esquecem-se dos pequenos e vão se afastando devagar em direção ao outro grupo.
O obreiro de Deus não deve agir assim. Precisa usar uma só medida para todos, porque Deus também usa uma só medida conosco. Não podemos ser pastores de apenas um grupo; precisamos pastorear todas as ovelhas. As cansadas e oprimidas são justamente as que mais necessitam do nosso cuidado.
2. Marido de uma só mulher
Naqueles dias, havia o problema de um homem se casar várias vezes, e a poligamia era banal entre os gregos. Por isso, o apóstolo ensina que o bispo deve ser irrepreensível e marido de uma só mulher. Isso é uma bênção de Deus.
3. Vigilante
A vigilância é algo glorioso. Às vezes, um pequeno cochilo traz um problema enorme. Um motorista que viaja a cem quilômetros por hora pode sofrer um acidente fatal por causa de um instante de sono ou distração.
A vida ministerial exige cuidado ainda maior. Não podemos viver descuidados; precisamos ser vigilantes.
4. Sóbrio
A sobriedade é uma virtude gloriosa na vida do homem. Ser sóbrio significa ter domínio próprio. A pessoa sóbria sabe o que quer e o que não quer; não se deixa levar por qualquer influência.
O homem de Deus deve agir como Daniel, que firmou um propósito no coração para não se contaminar com as iguarias do rei.
Alguém diz:
— Vou sair daquele ministério, porque o pessoal conversa demais.
Não! Você deve manter firme a sua personalidade. Eles conversam, mas você não precisa conversar. Enquanto falam, vá orar a Deus. A oração transforma todas as coisas.
O obreiro precisa ter sobriedade e domínio próprio. Uma pessoa sem sobriedade é facilmente vencida pela tentação.
Quando recebo algum dinheiro — e os irmãos sabem que o salário dos pastores não é tão grande, embora seja abençoado —, às vezes minha esposa faz as compras e o vendedor entrega muitas notas como troco. Eu chamo minhas filhas para contarmos o dinheiro juntos.
Elas, ainda pequenas, dizem:
— Papai, isso é muito dinheiro!
— Pois é, minhas filhas. Isto aqui é dinheiro.
Depois brincamos com as notas e as colocamos de lado, para que elas não criem uma fixação pelo dinheiro. Às vezes, a pessoa cresce, vai trabalhar em um banco, em uma tesouraria ou em outro lugar onde há muito dinheiro e, por nunca ter aprendido a lidar com ele, perde a sobriedade e cai em perdição.
O obreiro deve contentar-se com aquilo que Deus lhe deu. Se não puder trocar o carro neste ano, troque no ano que vem. Se ainda não puder andar de carro, ande a pé; isso faz bem à saúde.
Eu me sinto muito bem, irmãos. Caminho todos os dias. Estou até sem carro agora, mas não reclamarei com Deus por causa disso. Tenho salvação e saúde para andar; a toda hora há metrô e ônibus. Quando Deus me der condições, comprarei um carrinho. Louvado seja o nome do Senhor!
Nunca devemos nos deixar levar pela tentação. Às vezes, compramos um carro muito velho e ele só nos proporciona duas alegrias: a primeira, quando o compramos, pelo prazer de possuí-lo; a segunda, quando o vendemos, pelo prazer de ficarmos livres dele. Durante o tempo em que permanece conosco, é somente angústia. Espere um pouco e compre um carro um pouco mais novo.
5. Honesto
A honestidade dispensa explicações. O obreiro de Deus deve ser honesto em todos os aspectos de sua vida.
6. Hospitaleiro
O obreiro deve ser hospitaleiro, mas precisa ter cuidado com quem recebe em sua casa.
Vi um irmão chorando porque não teve esse cuidado. Ele leu na Bíblia que deveria seguir a hospitalidade. Então apareceu um homem com um violão, dizendo-se cantor, e aquele irmão o colocou dentro de casa.
— Mas ele é um irmão! A Bíblia manda seguir a hospitalidade — pensou.
O visitante, porém, não era um santo; era um homem mal-intencionado. Depois de uma semana, fugiu com a esposa daquele irmão, que também se deixou enganar. O homem havia levado a tentação para dentro da própria casa.
Ele chegou chorando e me disse:
— Irmão Severino Pedro, o senhor sabe o que aconteceu? Eu fiz isso por causa da Bíblia. Li que era para seguir a hospitalidade.
— Onde o irmão leu isso?
— O senhor ainda não leu? Está em Hebreus: “Não vos esqueçais da hospitalidade...”.
Eu olhei o texto e respondi:
— É verdade, irmão, mas o senhor se esqueceu de observar o restante: “...porque por ela alguns, não o sabendo, hospedaram anjos”. O irmão não prestou atenção ao contexto. A Bíblia manda receber anjos, não pessoas mal-intencionadas.
— Mas como poderei saber?
A própria Bíblia ensina. A sunamita fez uma triagem na vida de Eliseu. Ele passava por sua casa todos os dias, sempre com um andar firme:
— Bom dia! Boa tarde! Como vai o senhor? Como vai a senhora?
Aquela mulher observava seus passos. O ser humano é diferente dos outros animais. Quando encontramos o rastro de um animal, seguimos na direção para a qual ele foi. Quando queremos examinar a trajetória de um homem, olhamos para trás, para o lugar de onde veio e para os caminhos pelos quais passou.
A sunamita examinou os passos do homem de Deus e disse ao marido:
— Tenho observado que este que sempre passa por nós é um santo homem de Deus. Vamos hospedá-lo. Porém, para que ele e nós fiquemos tranquilos, não o colocaremos no interior da nossa casa. Faremos um pequeno quarto junto ao muro, com uma cama, uma mesa, uma cadeira e uma lamparina. Quando vier à nossa casa, ele comerá pão conosco e depois se retirará para lá.
Isso é prudência. Saiba quem você recebe em sua casa. Se for um verdadeiro homem de Deus, abra-lhe a porta, e o Senhor o abençoará de maneira extraordinária.
7. Apto para ensinar
É necessária aptidão para o ensino. Às vezes, ouço ou leio determinadas afirmações, balanço a cabeça, mas, interiormente, não concordo muito com elas. Esse é um problema meu.
Dizem, por exemplo, que o Sol é uma estrela de quinta grandeza, porque há outras estrelas classificadas como de grandeza superior. Pode ser. Ainda assim, para nós, o Sol brilha mais.
O mesmo acontece com a Igreja de Jesus. Alguém diz:
— O espiritismo tem setenta milhões de seguidores no Brasil.
Isso pode ser apenas matéria paga para impressionar o povo. Um antigo líder do espiritismo, que depois se converteu em uma igreja batista, disse-me:
— Pastor Severino, esses números são usados para sensibilizar as pessoas. Dizem que são setenta ou noventa milhões, mas não é tudo isso.
Outro pode afirmar:
— Aquela é a maior igreja!
Pode até ser maior em número, mas a Igreja de Jesus é como o Sol: ela é a luz do mundo. Pode haver outras organizações maiores, mas a Igreja do Senhor brilha e ilumina mais. Aleluia! Ela é a estrela de primeira grandeza do universo espiritual. Isso é glorioso!
8. Não dado ao vinho e não espancador
O obreiro não deve ser dado ao vinho nem ser espancador. Há pessoas que nos provocam tanto que sentimos vontade de responder com uma palavra dura. Como obreiros, porém, precisamos nos conter, orar e pedir a graça de Deus para compreender essas pessoas.
Já contei esta história aos irmãos, mas vou repeti-la. Eu era muito jovem e pastoreava uma igreja por volta de 1970. Havia ali uma irmã que não me deixava em paz. Todos os dias, ela encontrava algum motivo para murmurar.
Quando eu vestia uma camisa limpa, ela dizia:
— Isso é um pastor vaidoso! Os irmãos são todos pobres, mas ele usa diariamente uma camisa limpa, com o colarinho bem passado.
Numa sexta-feira, eu disse:
— Jesus, farei tudo o que puder para que, pelo menos hoje, essa irmã passe um dia sem murmurar.
Como estava um pouco frio, vesti uma camisa de cor e fui ao culto. No sábado, usei a mesma camisa. Ela olhou para mim e disse:
— Não adianta! Ele já está relaxando. Antes vestia uma camisa diferente todos os dias; agora está com a mesma camisa de ontem.
Eu disse:
— Meu Deus, não há jeito para quem gosta de murmurar! Se chegar ao Céu, encontrará alguma coisa errada por lá e dirá que Deus deveria ter feito tudo de outra maneira.
Naquele tempo, meu “carro” era uma bicicleta, e eu tinha muita força nas pernas. Chamei quatro ou cinco presbíteros para cooperarem comigo e anunciei:
— Irmãos, no culto de instrução de segunda-feira, excluirei essa irmã da igreja. Isso não é crente; não tem nada com Jesus!
Peguei a bicicleta, mas pensei:
— Antes, farei uma oração. Para ganhar uma pessoa, oramos tanto e pregamos tanto; para excluí-la, às vezes não queremos fazer nem uma oração de despedida. Pelo menos orarei antes de me despedir dessa irmã.
Cheguei a um canto de uma pequena fazenda e me ajoelhei. Era tempo de inverno. Quando oro, não faço apenas uma oração técnica; converso diretamente com Jesus. Eu disse:
— Senhor, não suporto mais aquela mulher!
Eu nem a chamei de irmã, porque estava irado.
— Não suporto mais aquela mulher na igreja, Jesus. Aquilo não é crente!
Então Deus encheu meu coração de alegria, abriu minha boca e falou por meio de uma palavra profética:
— Severino, aquela mulher é crente!
Aleluia!
— Pois não, Senhor. Se ela é crente, não discutirei contigo. Não entrarei em um terreno que pertence a Deus, porque quem manda é o Senhor. Se ela é crente, não há problema; eu a suportarei.
Voltei alegre e disse aos irmãos:
— Não excluiremos mais a irmã Raimunda. Deus disse que ela é crente.
Descobri que ela estava ali para não nos deixar cochilar. Era um espinho que nos mantinha despertos. Mais tarde, Jesus batizou aquela irmã com o Espírito Santo e transformou sua vida. Hoje ela é uma senhora respeitada na Igreja do Senhor.
Por isso, o bispo não deve ser espancador; precisa ser moderado.
9. Moderado
Terminarei aqui, porque procuro respeitar os horários. Mesmo cheio do Espírito Santo, o homem deve manter o cuidado, pois o Espírito Santo o controla.
Disse isso a um colega recentemente. Ele é presbítero e vinha correndo, muito afobado. Chegou perto de mim e nem me deu a paz do Senhor:
— O senhor viu Fulano?
— Irmão, venha cá.
— Não tenho tempo!
— Venha cá, rapaz. Espere! Que agonia é essa?
Ele riu, porque é uma pessoa boa. Então lhe disse:
— Você precisa, no mínimo, ser consagrado a evangelista, porque não para quieto.
— Por que, irmão Severino?
— Porque a Bíblia diz que convém que o bispo seja moderado. Você precisa de moderação. Para que toda essa agonia? Corra menos e confie mais.
Quando fazemos isso, a bênção de Deus vem. Não é o homem que deve correr atrás da bênção. A Bíblia ensina que é a bênção que corre atrás dele:
“E todas estas bênçãos virão sobre ti e te alcançarão...” (Deuteronômio 28.2)
Elas virão, correrão atrás de você e o alcançarão. Aleluia!
Para concluir, Jesus declara:
“Estes sinais seguirão aos que crerem...”
Irmão, permaneça no lugar em que Deus o colocou, e a bênção do Senhor virá sobre a sua vida.